Wednesday, January 26, 2011

Tindersticks - Montanha abaixo


Com cerca de vinte minutos de atraso, os Tinderstick entraram no palco do Grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda, munidos de um bom punhado de canções. Stuart Staples e os seus rapazes fizeram magistralmente o seu trabalho, cumpriram a função de levar aquela gente toda, que ali se deslocou, numa viagem pela carreira destes britânicos.

Vieram a Portugal para dar cinco concertos e apresentar a sua novidade, o álbum Falling Down a Mountain. Mas, como é óbvio, para além de nos darem a conhecer os temas novos, interpretaram também canções de álbuns anteriores.

Desloquei-me ao TMG para assistir a um concerto que já andava a fazer falta na minha lista. E que concerto! Durante quase todo o tempo, senti que um sorriso me acompanhava, mas, de vez em quando, ainda cheguei a sentir que uma lágrima poderia aparecer. È natural, aquilo foi um misto de emoções, um desfile de sensações que se acotovelavam. De cada vez que vinha um tema mais antigo, as memórias iam surgindo, e é claro que as minhas reacções vinham junto. Há coisas que nunca se esquecem. Mas quando essas coisas que não se esquecem estão associadas a canções, experimentamos sensações, e muitas vezes são memórias sensitivas.

O álbum Curtains (1997) é um bom exemplo disso. De cada vez que ouço esse álbum vêm-me memórias à mente, que eu guardo com muito carinho em mim. Claro que tudo o que está associado a essas memórias já não existe, ficou no passado, algo em que não mexo mais. Mas as sensações, as memórias sensitivas, moram em cada nota…

Não serei capaz de reproduzir aqui o alinhamento das canções do concerto dos Tindersticks. Como é natural, ao querer ir ver o concerto foi isso mesmo que eu fui fazer: desfrutar da presença dos rapazes de Nottingham, que ali estavam para tocar para mim – e não só, claro, mas eu quis considerar assim e pronto. Por isso, não me preocupei muito em tentar decorar o alinhamento. Sei que começaram com Falling Down a Moutain, primeiro tema do álbum e que lhe dá o nome, seguindo-se Keep You Beautiful. A partir daí foi um desfilar de grandes canções, entre as quais – e, obviamente, não por esta ordem – Peanuts, Harmony Around My Table, Tyed, entre outras.

Sei que, no final, ao sair do TMG, o meu espírito estava muito mais leve, e aqueles momentos estavam tão profundamente gravados, que nunca mais vou esquecer aqueles momentos de quase introspecção.

Tindersticks é um projecto que há muito me acompanha em muito momentos. Pela sua sonoridade, pelas suas letras tão tocantes, pela voz única de Staples… por tantas razões, que sonho, um dia, poder privar com estes moços, e infiltrar-me, nem que seja por alguns momentos, na multidão de sensações que me transmitem.

Em suma: um momento eterno, só para mim!

Isto é o que eu vou ouvindo.

Wednesday, February 03, 2010

Sequoia - Fruit and Songs (1999)


Ora aqui está um álbum que ocupa um lugar cimeiro nas minhas preferências. É provável que muito pouca gente conheça. Por um lado, lamento esse facto, visto que, creio, merecia muito mais do que aquilo que teve.


Um álbum assim, não chega aos tops, a meu ver, por várias razões. Por exemplo: trata-se de algum muito intimista, que puxa mais por um pedaço de tarde de domingo, em que, não havendo muito mais a fazer, vamos ocupando o tempo com actividades para combater o stress. Escrever, por exemplo. Pintar, esculpir ou moldar… ou então não fazer absolutamente nada. A sonoridade e a envolvência de “Fruit and Songs” a isso convida.


As memórias que guardo ao ouvir este disco, são isso mesmo. Muito intimistas. São cenas passadas a dois. Ou mesmo a sós. A dois, construindo momentos muito nossos, durante a quietude de um quase sono, depois da loucura rasgada entre beijos e carícias, e muito mais. A sós, caminhando pelos becos escuros dos meus pensamentos, construindo frases que nunca o chegaram a ser, ou vendo cenários que só eu vi.

Lembro-me de pôr o disco a rodar, em modo de repetição, adormecer ao som de “The Sun In My Mind”, ou de “U-Turn”, já quando o Sol forçava a sua presença pelo final da madrugada, e acordar com o mesmo som, num volume baixo, quase um murmúrio. “Afternoon Tea” é, para mim, um dos temas mais bem conseguidos deste registo. Na sua simplicidade – apenas voz e guitarra – consegue, ainda hoje, despertar sensações dentro de mim. Calmaria depois de momentos de agitação ou inquietude. Conforto depois de cansaços inesperados, cansaços de alma, de corpo, de coração…


A primeira vez que ouvi “Fruit and Songs”, a primeira faixa do disco, e, naturalmente, o primeiro single, foi num conhecido programa de música da RTP1, num sábado de tarde. Houve, quase de imediato, uma grande empatia com a sonoridade, que apostava em explorar as guitarras, com letras simples, de muito bom gosto, metafóricas quanto baste. Estávamos em 1999. Pouco tempo depois, numa das minhas regulares visitas à loja da Valentim de Carvalho da baixa de Coimbra, encontrei o disco, que reconheci de imediato. O nome Sequoia estava gravado na minha memória desde aquele sábado. Quase me atrevo a dizer que foi o disco que me procurou a mim, pois, e apesar de ter gostado imenso do som, sem perceber muito bem como ou porquê, não senti grande preocupação em procurá-lo. Mas, nessa tal visita, depois de percorrer umas quantas prateleiras, e já quase a desistir, por não conseguir encontrar nada que me prendesse realmente a atenção, lá estava ele, como que à minha espera. E o namoro começou. Ainda hoje consigo sentir coisas novas ao ouvi-lo. Provavelmente, aliás, quase de certeza que a maior parte das pessoas, se o ouvisse, não encontraria nada de especial. Mas eu encontro. E muita coisa. Talvez por me ter acompanhado em momentos específicos, em fases importantes da minha vida. Talvez por ter visto que, mais do que uma dúzia de canções, havia outras tantas histórias, que, se calhar, foram e continuam a ser vividas por mim. Cada canção pode ser um episódio deste meu livro de vida. Ou mais do que um, certamente.

E mais um ponto para este conto: os músicos são portugueses!

Convido-vos a descobrir “Fruit and Songs”. Descubram-no com a alma, com o coração. Ouçam-no em momentos mais vossos. Encontrem-se convosco mesmos, e vivam-no. Se procurarem bem, pode ser que o encontrem por aí. Se procurarem bem, pode ser que se encontrem bem dentro de vocês.


Isto é o que vou vivendo. E o que vou ouvindo.


Abraços!

Sunday, January 31, 2010

The Beatles - 50 anos

No passado Sábado, dia 30 de Janeiro, uma série de acontecimentos casuais levaram-me a procurar com mais curiosidade qualquer coisa sobre a grande banda do Século passado.

Por muitos considerados como a maior banda Rock de todos os tempos, para mim são, não haja dúvida, um marco da música popular de raiz anglo-saxónica, que influencia ainda hoje muito do que vamos ouvindo.

O facto de ter ido parar, como que por acaso (?), ao mais recente e maior centro comercial da Guarda, levou-me a dar conta, por causa de uma homenagem daquele espaço, do 50.º aniversário da aparição dos Beatles na vida de quase todos nós. E quando digo quase todos nós, não me enganos muito, pois, mesmo os meus pais contaram alguns episódios que recordam acerca dos Quatro de Liverpool. Não que sejam admiradores da música, da imagem, da irreverência da época, mas por se lembrarem de toda a máquina que existia à volta de quatro jovens, que faziam uma música estranha e tinham o cabelo muito comprido (!!!). Mesmo assim, as jovens caíam de amores por eles, fosse pelo que fosse.

Já pela noite, fui quase obrigado a regressar ao tal centro comercial. E lá estava uma banda de tributo aos Beatles. Nada maus, os rapazes que imitavam, como podiam, claro, as canções mais tocadas em todo o mundo. Algumas pessoas paradas, ouviam, na sua maioria imóveis, canções como “Get Back”, “Ticket to Ride”, entre outras, que acabei por não ouvir, pois já tinha despachado o que me levou àquele sítio, e digamos que, embora eu ouça música em qualquer lado, não estava com muita disposição para estar num centro comercial a ouvir Beatles. Louve-se, embora, a iniciativa, que considero muito original.

Pelos corredores, entre as lojas, alguns placards apresentavam os principais tópicos da história da Banda. Confesso que, nunca tendo sido grande admirador dos Beatles, mas reconhecendo-lhes o valor, também nunca procurei saber muito acerca do seu percurso. Assim, enquanto perdi de vista a minha mãe, fiquei a saber que o Eric Clapton colaborou numa das que pessoalmente considero como uma das mais bonitas canções deles: “While My Guitar Gently Weeps”. Segundo o texto, Clapton conseguiu mesmo pôr a guitarra a “chorar”, o que, para um senhor como ele, não terá sido muito complicado. Digo eu, não sei…

“While My Guitar Gently Weeps” é uma linda canção, que conheci nos meus saudosos tempos de “Nightingales” (um dia dissertarei um pouco acerca desta banda… bons tempos!...), através do meu amigo Xano (Alexandre Folgado, senhor da melhor voz que já me passeou pelos ouvidos, e que eu tive o privilégio de acompanhar em várias ocasiões). Nada como procurarem na internet, pois deve haver imensas versões, umas bonitas, outras nem tanto.

Os Beatles influenciam ainda hoje a música popular, e quase tudo o que é música, quase todo o que é músico, alguma vez, em alguma circunstância, pelo menos trauteou uma canção deles, tal é a sua presença na sociedade. Em relação a isto, gostava de terminar este texto com três pequenas histórias que aconteceram na minha vida, e que estão relacionadas directamente com os Beatles.

A influência desta banda chega a quase todo o lado. Exemplo disso é o facto de, quando eu era um jovem músico no Orfeão do Centro Cultural da Guarda, ter interpretado em vários espectáculos o tema “Yesterday”, num arranjo interessante para coro e orquestra típica. E a imagem que guardo no baú das recordações, é estar a interpretar essa canção no velhinho, saudoso, moribundo Cine-Teatro da Guarda. E lembro-me também de estar a comentar com os meus colegas de orquestra que tinha corrido muito bem para o que era costume.

Durante muito tempo, esse era um dos pouquíssimos temas que eu conhecia dos Beatles. Ainda hoje é, provavelmente o único que sei a letra toda de cor, o que em mim – e quem me conhece sabe bem – é muito raro acontecer. E foi isso que me levou, uma vez, a aceitar o desafio de interpretar essa mesma canção num concurso de Karaoke. Seria talvez o ido ano de 1994. Estando eu já por Coimbra como estudante, lembro-me que estava com alguns amigos e decidimos entrar num bar (“Urbanidades”, mais tarde “Famous Mouse”), onde decorria um concurso de karaoke. Quem vencesse nessa noite, iria estar presente numa final, que tinha como prémio um fim de semana na Madeira. Como já começava a ser conhecida, entre os meus amigos, a minha “veia de cantor”, fui quase empurrado para o palco. Devo confessar que a atitude deles foi quase um afago ao meu ego… tenho que admitir que, por vezes, gosto de ter as atenções viradas para mim. E lá me fui inscrever no tal concurso. Comecei por cantar “Should I Stay Or Should I Go”, um clássico dos Clash, influenciado ainda pela recente “carreira” como vocalista dos Ala Norte. A minha interpretação colocou-me em primeiro lugar, ex-aequo com um rapaz que cantou, também muito bem, “New York, New York” do Frank Sinatra. Foi necessário cantar de novo para se decidir quem passaria à final. E foi então que escolhi cantar a única que eu sabia dos Beatles: “Yesterday”. Infelizmente não fiquei apurado, pois, apesar de não me ter corrido mal de todo, era o público que decidia quem passava. Eu estava com meia dúzia de amigos. O outro rapaz tinha a faculdade dele quase em peso… Valeu pela experiência.

Quando há pouco dizia que quase todo o que é músico já interpretou, ou pelo menos trauteou Beatles, tenho que sublinhar de forma muito carregada o “quase”. Há uns bons dezoito ou dezanove anos, frequentei um pequeno curso de direcção coral, no Centro Cultural da Guarda, orientado por um grande senhor da música, de renome internacional, Roberto Alejandro Pérez. Trata-se de um maestro argentino que já dirigiu as grandes orquestras a nível mundial, actuou nas mais belas e famosas salas do mundo. Um nome grande da música, portanto. E, claro, com um conhecimento vastíssimo no campo da música. Tenho que admitir que foi realmente um privilégio poder assistir àquele curso, que me enriqueceu muito a nível musical. Nessa altura, eu e alguns amigos, entre os quais o meu irmão Luís, dávamos os primeiros passos na música pop/rock, e formávamos uma banda que, entre muitas outras canções, algumas também originais, interpretava o mesmo “Yesterday”, numa versão muito adolescente. Num dos intervalos do referido curso, decidimos entrar na sala de ensaios da nossa banda, visto que tudo decorria na mesma casa, o Centro Cultural da Guarda. Quando demos conta, o Maestro estava à porta, com um enorme sorriso, a apreciar a nossa performance. Imediatamente, um pensamento irrompeu pelas nossas mentes: “concentremo-nos, não podemos falhar!” Qual não foi o nosso espanto quando, no final da nossa prestação, o Maestro bateu palmas, dizendo, com o mesmo sorriso: “Muito bonito, sim senhor! Que música é esta?” Adorava ter uma câmara que tivesse filmado as nossas expressões, um misto de incredulidade com escândalo: “Beatles…? Yesterday…?” Ao que o Maestro respondeu: “Ah, muito bem… Não conheço…”

Isto é o que vou recordando. E o que vou ouvindo…


Abraços!

Monday, February 02, 2009

Revivalismos


Hoje passei o dia acompanhado pelo som dos Creedence Clearwater Revival. Às vezes sabe bem, recuar para tempos que nunca vivemos, mas que conseguimos pelo menos imaginar.
Os Creedence – ou os Revival, ou, ainda mais simples, os CCR – conseguiram ser, musicalmente, o oposto do seu próprio nome: músicos descomplicados que fundiram, magistralmente, diga-se, dois estilos muito americanos: o country e o rock. E o resultado foi um excepcional compêndio de boa música. Da tal que perdura, que não é efémera. Como eu gosto, portanto. Basta ver que ainda hoje, não são poucas as canções dos Creedence que são trauteadas, cantadas, karaokizadas, martirizadas, assassinadas, e, porque não, revividas por tantos, desde o mais anónimo e desafinado cantor de chuveiro até aos maiores nomes da música à escala mundial. Lembro-me, a este propósito, do concerto de Wembley em que os próprios elementos dos Queen interpretaram o celebérrimo “Hello Mary Lou”, levando a multidão ao rubro. E foi tão simples – uma guitarra, um baixo, uma pandeireta e o Freddie a cantar. Tão simples como a própria música da formação americana. Mas ao mesmo tempo tão marcante como ela mesma.
O grupo formou-se ainda nos anos ’60 do século passado, quando Tom Fogerty já se havia juntado ao seu irmão John, a Doug Clifford e a Stu Cook. Depois de alguns êxitos locais, sob outros nomes, adoptam a designação com que viriam a ter sucesso mundial, embora numa demasiado curta carreira de apenas cinco anos. Só que, durante esse tempo (1967-1972), eles conseguiram arrecadar nada menos que nove discos de ouro e sete de platina, entre LP’s e singles! Vá-se lá saber porquê…
Na minha memória está aquele que foi o seu último álbum de estúdio, “Mardi Gras” (1972), que, segundo o que se diz por aí, já transparece os primeiros sinais de separação, pois, se até aí era John Fogerty que compunha em exclusividade, neste trabalho já aparecem algumas composições de Doug e Stu. Além disso, Tom Fogerty já não participa nele. O facto é que, desde então, a separação foi até bastante rápida. Este disco faz parte da mobília cá de casa, mas durante toda a minha vida fez parte da mobília da casa dos meus pais, onde vivi até aos meus 18 anos. Todo esse tempo me lembro de ter este álbum sempre perto do gira-discos. Era um fascínio ouvir aquelas melodias tão contagiantes, com o ruído típico da agulha explorando os sulcos do vinil. Esta combinação era perfeita, até porque, lembro-me, pensava que aquele disco seria tão valioso como um tesouro, visto que conseguia ser dois anos mais velho que eu! E aquela sonoridade antiga, o som do pó a acumular-se na agulha… era impossível não viajar.
Hoje, este consegue continuar a ser um grande disco. Claro que, segundo os especialistas, parece que não é o melhor. Provavelmente terei de concordar. Mas é, sem dúvida, entre todos os álbuns que conheço dos Creedence, o que me leva a viajar mais longe nas minhas memórias. Claro que da minúscula colecção de discos de vinil que estava em casa dos meus pais, fazem parte outros nomes. Porém, se me dessem a escolher apenas um, o disco que eu nunca venderia, nem deitaria fora é o “Mardi Gras”. E o engraçado é que, quando era bem mais jovem, como não sabia quase nada daquele disco, a não ser as suas melodias, cheguei a ter dúvidas sobre se “Mardi Gras” seria o nome da banda, e Creedence Clearwater Revival o nome do disco…


Isto é o que vou ouvindo.


Abraços!

Sunday, January 25, 2009

Saudade. Amália.


Amália Rodrigues é uma figura sobre quem já se disse tudo o que havia para dizer. No entanto, como é possível que ainda mexa connosco?

Hoje é domingo. Lá fora está frio, e eu estou sentado no sofá. Como não tenho nada para fazer, decido correr os canais da televisão para ver se há alguma coisa de interessante para passar o tempo. Tropeço sem querer na RTP Memória, onde passam um programa qualquer, provavelmente dos anos 80 do século passado, apresentado por Fialho Gouveia. Os convidados são figuras grandes da arte em Portugal: Raul Solnado e Amália Rodrigues. O tema de conversa andava à volta de um compositor português, Frederico Valério, que, entre vários outros, compôs o tema “Amália”, que viria a ser imortalizado na voz da própria.

Ora, eis que estava eu a ouvir as palavras dos intervenientes do programa, quando o Fialho Gouveia pede à Amália para interpretar esse mesmo fado. Nunca conseguirei explicar a razão de uma pessoa se arrepiar quando ouve alguém a cantar, mas foi o que me aconteceu, assim que comecei a ouvir a voz da fadista. E não foi pequeno o arrepio… e garanto-vos que não estava com frio, apesar de lá fora estar a nevar!

Ainda não tive oportunidade de entrar para as duzentas e tal mil pessoas que já viram o filme sobre a vida da Amália Rodrigues, mas sei que comungamos do mesmo sentimento. É um sentimento que o posso comparar ao de patriotismo. Amália tornou-se num símbolo da Nação, num aspecto da personalidade dos portugueses. Vivemos e respiramos ao som inconfundível, inimitável, inatingível da sua voz.

Podemos perguntar a qualquer português, o que lhe diz o nome Amália Rodrigues. Concerteza que pouquíssimas pessoas sabem dizer ao certo porque gostam de ouvir a Amália a cantar, embora possamos ouvir as mais variadas explicações. Até mesmo nos seus últimos anos de vida, quando a voz não ajudava, conseguia puxar pelos mais profundos sentimentos das pessoas.

Creio que o sentimento que temos pela figura da cantora, será equiparado a outro sentimento que, não sendo exclusivamente português, não existe em mais língua nenhuma do mundo uma palavra com o mesmo significado: saudade.

Saudade. Amália. Duas palavras. Dois sentimentos. Um povo. Uma pátria. Um arrepio… Saudades de Amália. Num domingo à tarde, sem nada para fazer.

Isto é o que vou ouvindo.

Wednesday, January 21, 2009

João Aguardela (R.I.P.)

Foto: http://blitz.aeiou.pt


Nada me pode deixar mais triste do que iniciar as minhas publicações neste espaço com esta triste notícia, que, aliás, já não é novidade.


João Aguardela morreu.


Aos 39 anos de idade, a menos de um mês de cumprir os 40, o João partiu, derrotado pela doença. Mas deixou obra feita. E que obra!

Marcou, sem dúvida nenhuma, uma geração inteira, com a sua "Vida de Marinheiro". Ainda hoje se vai ouvindo esta expressão por aí. E nada mais evidente do que uma expressão que perdura no tempo para marcar o valor de alguém que lutou muito pela música nacional. É destas coisas que se faz a música que eu gosto: mensagens que perduram no tempo, canções que se ouvem vinte anos depois e ainda nos soam a novo.

Abomino tudo o que é efémero e apenas com valor comercial. Mas considero que também tem a sua importância, pois para haver o preto tem que existir o branco. Ou seja, para haver o bom tem que existir o mau, senão, como é que sabíamos que era bom? Cito, a este propósito, o que li uma vez na capa de um disco dos Enigma: "If you believe in God, then you have to believe in the Devil" (Se se acredita em Deus, então tem que se acreditar no Diabo).

A propósito do desaparecimento prematuro do João, gostaria agora de transcrever o que escrevi noutro site, apenas para completar um pouco mais este post:


"Só é pena que as pessoas não lhe tenham dado o devido valor em vida. É o costume, quando morre alguém tudo corre a dizer maravilhas, mesmo que em vida lhe virassem a cara sistematicamente. O que conta para este povo é o facilitismo, ninguém quer perder tempo a ouvir, interiorizar, mastigar e digerir boa música, música com substância, da qual saem emoções e sensações e sentimentos, quando se espreme. O que conta para esta gente é ver um paneleiro qualquer de peitaça à mostra, cabelo arranjadinho na moda, o focinho cheio de cremes e bases, a mexer as ancas como quem está a mandar uma à porno style e a cantar "Por isso mesmo, Baila p'ra mim/Que eu fico louco/Baila p'ra mim/Dá-me o teu fogo"... MAS QUE É ISTOOOO!!! Há quem diga que este país precisava de uma limpeza. Concordo. Até na música era preciso uma limpeza a fundo. Infelizmente quem limpa só leva o melhor... Já cantava o Represas "Mas Deus leva os que ama/Só Deus tem os que mais ama"
João Aguardela era um homem de valor, que foi reconhecido em vida por muito poucos. Valha-nos a obra que deixou, e que eu convido toda a gente a descobrir. Coisa que já todos devíamos ter feito há muito tempo. Sugiro que ouçam com muita atenção e mente aberta o projecto que abraçou com Luis Varatojo "A Naifa". Nele existe uma muito interessante mistura de música tradicional com música pop. E é um projecto à medida do João, experimental, mas com uma imensa personalidade. Ouçam, ouçam, vale a pena, garanto-vos.
Até sempre, João. Onde quer que estejas, o teu valor será sempre grande!"
in www.relfortuna.net

Isto é o que vou ouvindo.


Abraços

O Início

Nas minhas memórias mais antigas consigo encontrar algo que ainda hoje mantenho e faço esforços por manter. A Música, essa arte tão universal, e que pode até dividir as pessoas (não tanto como outras coisas, como clubes de futebol, por exemplo, mas ainda assim...), sempre me acompanhou. Quando era novo, muito novo ainda, lembro-me que os meus presentes de aniversário e de Natal tinham sempre que ver com a música. Enquanto eu via os outros miúdos a receber carrinhos, pistas de combóios e pistolas, eu recebia, e sempre com grande entusiasmo, guitarras, pianos, flautas, acordeões, baterias... tudo de brincar, mas com uma clara mensagem dos meus pais para o meu futuro: uma arma não precisa matar para ser poderosa. E a Música pode ser uma arma bastante poderosa!
Essa é a mensagem que eu trago comigo na minha vida. Esse é o grande ensinamento que os meus pais me deram e que eu guardo com carinho, como um tesouro muito valioso. Como, aliás, tudo o que os meus pais me deram.

É sobre música que eu vou falar neste espaço. Falo da música que vou ouvindo. E faço-o de maneira despreocupada, falando do que eu gosto, expressando nada mais que a minha opinião.
Não esperem artigos de crítica musical. Recuso-me a fazê-lo, pois deixaria de ser algo meu, para ser uma opinião baseada em outras directrizes que não a pura e simples opinião pessoal.
Vou falar dos discos que ouço (assim como outras novidades que vou sabendo, claro), e deixar aqui o que sinto ao ouvir esses discos. Não quero que sigam a minha opinião, pois cada um tem o gosto que tem.
Talvez através destes textos possamos trocar impressões sobre as novidades do mundo musical. Por isso, espero que participem também neste espaço.

Fiquem, portanto, atentos, porque vou falar-vos d'O Que Vou Ouvindo!

Abraços!