Saudade. Amália.

Amália Rodrigues é uma figura sobre quem já se disse tudo o que havia para dizer. No entanto, como é possível que ainda mexa connosco?
Hoje é domingo. Lá fora está frio, e eu estou sentado no sofá. Como não tenho nada para fazer, decido correr os canais da televisão para ver se há alguma coisa de interessante para passar o tempo. Tropeço sem querer na RTP Memória, onde passam um programa qualquer, provavelmente dos anos 80 do século passado, apresentado por Fialho Gouveia. Os convidados são figuras grandes da arte em Portugal: Raul Solnado e Amália Rodrigues. O tema de conversa andava à volta de um compositor português, Frederico Valério, que, entre vários outros, compôs o tema “Amália”, que viria a ser imortalizado na voz da própria.
Ora, eis que estava eu a ouvir as palavras dos intervenientes do programa, quando o Fialho Gouveia pede à Amália para interpretar esse mesmo fado. Nunca conseguirei explicar a razão de uma pessoa se arrepiar quando ouve alguém a cantar, mas foi o que me aconteceu, assim que comecei a ouvir a voz da fadista. E não foi pequeno o arrepio… e garanto-vos que não estava com frio, apesar de lá fora estar a nevar!
Ainda não tive oportunidade de entrar para as duzentas e tal mil pessoas que já viram o filme sobre a vida da Amália Rodrigues, mas sei que comungamos do mesmo sentimento. É um sentimento que o posso comparar ao de patriotismo. Amália tornou-se num símbolo da Nação, num aspecto da personalidade dos portugueses. Vivemos e respiramos ao som inconfundível, inimitável, inatingível da sua voz.
Podemos perguntar a qualquer português, o que lhe diz o nome Amália Rodrigues. Concerteza que pouquíssimas pessoas sabem dizer ao certo porque gostam de ouvir a Amália a cantar, embora possamos ouvir as mais variadas explicações. Até mesmo nos seus últimos anos de vida, quando a voz não ajudava, conseguia puxar pelos mais profundos sentimentos das pessoas.
Creio que o sentimento que temos pela figura da cantora, será equiparado a outro sentimento que, não sendo exclusivamente português, não existe em mais língua nenhuma do mundo uma palavra com o mesmo significado: saudade.
Saudade. Amália. Duas palavras. Dois sentimentos. Um povo. Uma pátria. Um arrepio… Saudades de Amália. Num domingo à tarde, sem nada para fazer.
Isto é o que vou ouvindo.


